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Produtividade: uma “lição de casa” fundamental

há 7 horas
7 min de leitura

Diante de crises macroeconômicas, um assunto sempre volta à tona: a produtividade. Não que em outros momentos, não seja importante, mas porque é em meio aos desafios que ela se torna fundamental para a manutenção da atividade, principalmente a relacionada à manufatura. Relação entre o que é produzido e os recursos utilizados para a produção, no Brasil, dados mostram que a produtividade vem perdendo força. Pesquisa elaborada pela Conference Board, instituto norte-americano, indica um retrocesso histórico. Conforme o levantamento, a produtividade da economia brasileira caiu 18,5% em 30 anos e está em níveis próximos aos de 1958. O crescimento baixo colocou o Brasil na 37ª posição entre 38 economias no ranking de produtividade, conforme a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).


Um dos poucos setores que se destacam em termos de produtividade no contexto da Indústria de Transformação é o calçadista. Levantamento realizado pela Abicalçados aponta que a indústria nacional supera alguns dos seus principais concorrentes internacionais. Com uma produtividade média de 3.149 pares por trabalhador, a indústria está à frente da média asiática (2.324 pares/trabalhador), latino-americana (3.071 pares) e europeia (1.651 pares). No mundo, a média é de 2.457 pares.


O presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, ressalta que a indústria calçadista brasileira, mesmo com as dificuldades regulatórias, alta carga tributária, crédito caro, logística ineficiente, e outros problemas estruturais, “historicamente faz a lição de casa”. Lição que, segundo Ferreira, tem como premissas a manutenção e, quando possível, a ampliação dos investimentos em modernização do parque fabril, especialmente em automação. “Evidentemente que existe espaço para crescimento da produtividade, mas o cenário econômico não favorece a ampliação de investimentos. O fato é que a indústria calçadista brasileira destoa da média geral da manufatura, o que mostra que os problemas relativos à competitividade do setor estão, em sua grande parte, da porta para fora da fábrica”, avalia Ferreira, ressaltando que a Abicalçados trabalha pautas visando a melhoria da competitividade brasileira do “portão para fora” das fábricas.


Via Marte: automação logística

Um dos cases de sucesso no setor calçadista é a Via Marte. Há três décadas, a empresa se adiantou em um assunto muito relevante para a atividade, a automação de processos logísticos. Em 1996, o grupo calçadista associou-se à GS1 Brasil, iniciando a identificação de seus produtos com os códigos EANUCC (hoje, o código GTIN, número global de item comercial). O objetivo, alcançado com sucesso, era mitigar erros de expedição e melhorar o controle dos estoques. No ano de 2016, a empresa adotou o SGTIN (GTIN serializado), passando a identificar de forma única e inequívoca cada par de calçado revisado pelo controle de qualidade. Há três anos, em 2023, foi dado o mais recente passo na jornada de automação logística plena, quando a empresa substituiu o serial impresso pelo QR Code digital link na etiqueta do produto, tornando o acesso público.


À frente desse processo, o gerente de Tecnologia da Informação da Via Marte, Ivair Kautzmann, explica que a evolução na automação permitiu que a empresa conseguisse 100% de mitigação dos erros de picking, packing e despacho; acuracidade no estoque (auditado externamente); 4% de ganho na conta de fretes, com redução de custos com reentrega e erros de expedição; lastro para vendas em tempo real; apontamento da produção em tempo real; equipes enxutas; e maior velocidade e precisão no processo. “Também tivemos ganhos com marketing, pois hoje, com o QR Code impresso na embalagem, a consumidora consegue saber todo o caminho percorrido pelo calçado até chegar na sua casa. Além de fidelizar essa consumidora, esse QR Code permite que realizemos promoções, tudo de forma automatizada e on-line”, explica Kautzmann.


Grendene: investimento contínuo

Uma das maiores fabricantes de calçados do País, a Grendene é outro case de sucesso no que diz respeito à produtividade. Trabalhando permanentemente com melhoria de processos, eficiência operacional, automação e gestão de indicadores, o grupo possui uma operação industrial de grande escala e bastante verticalizada, o que exige disciplina de processos e acompanhamento contínuo de produtividade, qualidade, eficiência, perdas e utilização dos ativos. “Estamos incorporando cada vez mais tecnologia ao ambiente industrial. Inteligência Artificial, Internet das Coisas, robótica, sistemas de visão, impressão 3D e outras tecnologias fazem parte das iniciativas e discussões de transformação da companhia”, conta Alceu de Albuquerque, diretor de Relações com Investidores e diretor Administrativo Financeiro da Grendene, ressaltando que a companhia investe continuamente na modernização do seu parque fabril. “Considerando os investimentos em imobilizado e intangível divulgados nos Relatórios da Administração, a companhia realizou investimentos relevantes nos últimos anos. É importante ressaltar que esses valores abrangem o conjunto dos investimentos da Grendene e não exclusivamente projetos de produtividade industrial”, acrescenta.


Albuquerque conta que a Grendene acompanha diversos indicadores de produtividade, porque entende que ela não pode ser medida por uma única variável. “Temos indicadores relacionados à eficiência da mão de obra, consumo e aproveitamento de matérias-primas, perdas, eficiência dos equipamentos, utilização da capacidade instalada, qualidade e custos de produção, entre outros. Um indicador bastante completo para avaliarmos o resultado desse conjunto de iniciativas é o EBIT, porque, ao final, ele captura boa parte dos efeitos da eficiência operacional da companhia”, comenta.


Reconhecendo o bom nível de produtividade na indústria calçadista, o profissional ressalta que fatores estruturais externos mitigam os ganhos da indústria. “O problema de competitividade da indústria bra- sileira não pode ser atribuído simplesmente à produtividade dentro das fábricas. Nem sempre é possí- vel transformar integralmente a produtividade industrial em competitividade. Existem fatores externos às empresas que pesam nessa equação: logística, tributação, burocracia, custo de capital, infraestrutura e, dependendo do período, também o câmbio”, conclui.


Pequenas e produtivas

Existe um mito, até mesmo um preconceito, de que alta produtividade é algo para empresas maiores, com grande capacidade de investimentos. Não é verdade. Soluções simples podem ajudar empresas de todos os portes a se desenvolverem na área. Conforme levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), empresas participantes das trilhas de produtividade da entidade e do Brasil Mais Produtivo (leia mais abaixo) registram elevação média de produtividade acima de 20% a 30% após a implantação de melhorias operacionais.


A gestora Nacional de Moda do Sebrae, Thais Rosiak Oliveira, destaca que, “nos pequenos negócios, os saltos mais expressivos de produtividade ocorrem na organização do processo produtivo e na eliminação de desperdícios, e não necessariamente na aquisição de equipamentos caros”. Segundo ela, empresas de menor porte podem transformar seus resultados com investimentos financeiros baixos ou nulos, adotando práticas como: Lean Manufacturing e 5S, que envolvem a reorganização do layout fabril; padronização e fichas técnicas, que nada mais são do que a formatação de métodos operacionais; otimização do encaixe e corte, que envolvem a melhoria no aproveitamento de insumos; Planejamento e Controle da Produção (PCP), que é a programação de lotes de produção com base na capacidade real e no giro de estoque, evitando paradas de linha por falta de componentes ou acúmulo de estoques intermediários.


Segundo Thaís, o Sebrae realiza diagnósticos de produtividade nas empresas do setor. Atualmente, os principais gargalos estão concentrados em cinco dimensões estruturais: Processos Manuais e Despadronizados, o que gera altos índices de refugo, sobras e retrabalhos que podem atingir até 30% de não conformidades; Escassez e Rotatividade de Mão-de-Obra, em especial a dificuldade de retenção em funções técnicas essenciais - neste caso, conforme o Sebrae, a rotatividade média anual supera 35% em diversos polos industriais; Gestão Financeira e Precificação Inadequada, com ausência de controles de custos minuto/peça ou par/hora; mistura de finanças pessoais com as da empresa; e formação de preços sem cálculo correto de margens operacionais e ponto de equilíbrio.


Para auxiliar as empresas, a gestora conta que o Sebrae disponibiliza as chamadas jornadas integradas de atendimento, com foco na elevação da eficiência operacional e no acesso a mercados. Neste sentido, entre os projetos disponíveis, Thais lista o Programa Brasil Mais Produtivo, iniciativa voltada à indústria que oferece diagnóstico de maturidade e consultorias especializadas in company em manufatura enxuta; otimização de fluxo de valor, redução de desperdícios e eficiência energética; consultorias técnicas aplicadas para melhoria de processos fabris, automação gradual, modelagem e design digital 3D (Sebratec); implementação de práticas de economia circular e adequação para certificações setoriais; acompanha- mento metodológico individualizado por meio de agentes Locais de Inovação (ALI); e o chamado encadeamento produtivo, quando a micro ou pequena empresa passa a atuar em parceria com uma grande empresa para o desenvolvimento da produtividade.


Senai/SP: competitividade da indústria

Outro ponto importante para impulsionar a produtividade nas empresas é a formação de mão de obra qualificada. Nesta seara, entra o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Em São Paulo, a instituição atua em parceria com a Fiesp como uma das principais redes de educação profissional, tecnológica e inovação voltadas ao fortalecimento da indústria paulista, por meio da formação e qualificação de profissionais, da oferta de cursos de aprendizagem, técnicos, superiores e de pós-graduação, além da prestação de serviços tecnológicos, consultorias, pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) e programas de empreendedorismo industrial.


Com uma rede estadual de 90 unidades atuando conforme vocações industriais regionais distintas, as unidades Senai de Birigui e Araçatuba têm à frente Tarso Tristão da Silva, que atua focado nas demandas das indústrias, seja no desenvolvimento de pessoas, no aumento de eficiência operacional, na implantação de novas soluções ou na inovação. Segundo ele, Birigui, Jaú e Franca concentram atendimento especializado voltado para a cadeia produtiva do couro e do calçado. “Atuamos fortemente na busca por soluções para as demandas da indústria, articulando soluções de educação profissional, de serviços tecnológicos, metrológicos, de empreendedorismo industrial e de PD&I", diz. Neste ponto, o Senai local também trabalha com foco na transformação digital. “A transformação digital tem grande potencial para melhorias de processos, planejamento, controle de estoque, entre outros pontos”, explica.


Para 2027, Silva adianta que será lançado um curso de pós-graduação em Inteligência Artificial na faculdade que funciona na unidade de Birigui. Além da educação profissional - com cursos técnicos, cursos livres, de aprendizagem industrial, graduação e pós-graduação -, o Senai/SP conta com 420 consultores, sendo 16 lotados nas regiões de Birigui e Araçatuba, que realizam diagnósticos e consultorias empresariais, além de assessorias que conectam a indústria a serviços e produtos desenvolvidos por startups focadas, principalmente, em automação industrial, sistemas inteligentes, inovação e conexão com agentes financeiros. Para acessar toda a gama de serviços, as empresas devem acessar o site institucional.


Brasil Mais Produtivo

Uma das oportunidades vistas pela Abicalçados visando a modernização das empresas, com foco no aumento da produtividade, é o programa Brasil Mais Produtivo. Promovido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a iniciativa oferece uma oportunidade única para as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) de todos os estados aumentarem sua produtividade, reduzirem custos operacionais e impulsionarem o faturamento. Por meio do programa, as empresas conseguem otimizar suas operações e economizar recursos, gerando resultados financeiros expressivos. As modalidades de atendimento no programa incluem consultorias especializadas custeadas pelos parceiros do Brasil Mais Produtivo.


Comunicação da ABICALÇADOS



 
 
 

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